Crônica de 20.11.09   Número 344

A MORTE E A MORTE DE UM IMORTAL

Até a pé nós iremos, para o que der e vier
Mas o certo é que nós estaremos
Com o Grêmio onde o Grêmio estiver
Lupicínio Rodrigues


Meu sogro era gremista. Bem gremista. Visceralmente gremista. Tanto que, para estar à altura de sua paixão, decidiu levar esse ardor para além da vida. Ele, que talvez não seja o único, comprou uma sepultura especial no João XXIII: na face do cemitério porto-alegrense que dá vistas ao Estádio Olímpico. Desde 1996, é lá que repousa sua alma. Sobrevive (agoniza?) o plano de acompanhar a saga esportiva de seu amado time, do qual era sócio remido, para a eternidade. Seguindo à risca os belos versos do hino composto por Lupicínio Rodrigues, tornou-se um imortal tricolor.

Quanto respeito e admiração eu, que sou colorado de nascimento e orgulho, devoto ao grande gremista que foi meu sogro! Que honra me foi concedida ao me tornar parte da família de alguém cuja entrega transcende a própria existência terrena! Seu exemplo impõe a mim, esposa e filhos, alvi-rubros, um parâmetro elevadíssimo de apego. Afinal, nesse Grenal de torcidas, desejamos a vitória, mas o empate é o mínimo que perseguimos.

Por isso, em respeito à memória do Seu Telmo, quero registrar o protesto com relação à provável demolição do Estádio Olímpico, parte do projeto de uma arena esportiva em outro ponto da cidade. Caso se confirme, representará uma segunda morte imposta a um grupo de torcedores diferenciados e que elevaram suas intenções terrenas ao mundo dos céus. Verdadeiros tricolores imortais! Pessoas que dedicaram suas vidas ao Grêmio, e, para sempre, a morte também.

É claro que o tema suscita a história recente de Porto Alegre, na qual o Sport Club Internacional deixou o Estádio dos Eucaliptos para mudar-se para o Gigante da Beira-Rio. Porém, nossa nova casa (hoje quarentona) foi construída conforme o exemplo do lendário Olímpico: com recursos próprios, com participação da imensa nação colorada, com o suor e o sangue de mais de uma geração. O que se avizinha no horizonte tricolor é um estádio edificado por terceiros, dispostos a explorar comercialmente a paixão de uma torcida. Pior: caso o empreendimento naufrague em seu transcurso, como já ocorreu no recente e bem intencionado caso ISL, nossos irmãos azuis restarão despejados, prejudicando o equilíbrio que sustenta e eleva a dupla Grenal no cenário futebolístico mundial.

Em respeito ao imortal tricolor que foi (é) meu sogro, lamentando a impossibilidade de salvaguardar seu último desejo, faço um alerta: gremistas, roguem para que os deuses da bola não punam aqueles que decidiram macular a vontade derradeira dos que, hoje sepultados, viveram e morreram arrebatados pelo Grêmio. Será que seus heróis precisavam de um novo templo? Ou bastava a modernização de uma casa histórica, construída com os bravos recursos da paixão? Afinal, nada será maior do que um fracasso capaz de deixar o tricolor gaúcho mais do que (até) a pé: sem ter para onde ir.
 
  Crônica de 12.11.09   Número 343

LONGEVIDADE

Existem expressões, modos de falar ou metáforas que, de tão perfeitas, sobrevivem por um longo tempo, mesmo após a extinção do ato ou objeto gerador. Por exemplo: dar a mão à palmatória. Com o perdão do trocadilho, pode-se contar nos dedos as pessoas vivas que presenciaram (ou sofreram) tal castigo nas escolas. Oscar Niemeyer talvez seja um. Porém, o atual sistema de ensino não oferece um substituto com igual adequação. Ninguém em sã consciência vai considerar a possibilidade de, para demonstrar arrependimento, falar que “sim, me submeto a um convite à reflexão”. Mesmo sendo politicamente correta, a nova expressão nasce sem a metade da força.

Outra: caiu a ficha. Não imaginam o sorriso largo dos meus filhos no dia em que, vasculhando gavetas, encontraram um ficha telefônica de verdade. Foi um assombro darem-se conta de que aquele disco de metal significava, fisicamente, créditos para a conversa. Explicamos que, ao completar a ligação, ou quando terminava o tempo pago, a ficha realmente caía para dentro do telefone público, vulgo orelhão. Essa geração bem poderia dizer que “completou o download”. Então, por que continuam falando que a ficha caiu? A única justificativa que encontro me remete outra vez à palmatória: cair a ficha também é uma ação concreta, rica em movimento, som e significado. Tudo indica que sobreviverá Era Celular adentro.

Ainda no telefone, dois termos se inscrevem na categoria de expressões que, de tão bacanas, torço para que sobrevivam à nascente: passar um fio e ficar pendurado no gancho. Podem até ser usadas em uma única frase, por mais paradoxal que pareça: “o fulano ficou de me passar um fio, mas fiquei pendurado no gancho...”. Já andam raros os telefones com fio – só lembramos de instalar um desses quando a casa fica sem luz. E o gancho, a exemplo do disco, virou peça de museu. Mas, convenhamos, que maravilha de metáfora para a espera tediosa a de ficar pendurado no gancho. Ainda mais no tempo em que todo telefone tinha fio, o que obrigava uma imobilidade implícita!

Outro dia percebi que, nos supermercados, já não existem mais filmes fotográficos para vender. De tão raros, agora só em lojas especializadas. Com a popularização das câmeras digitais, ninguém mais corre o risco de, por acidente, ver queimado o seu filme. Mesmo assim, duvido que alguém reclame do outro dizendo: “ô meu, desse jeito você vai deletar minha imagem!”. Outra vez temos uma manifestação física suplantando em força de significado uma ação virtual. É um caso idêntico ao de virar o disco. “Camarada, você já me encheu: troca a pasta desse i-pod!” tem muito menos poesia do que “deixa de ser chato e vira esse disco!”. Isso sem falar na tagarelice repetitiva denunciada pelo disco arranhado...

Outra expressão que já não encontra mais eco em nosso cotidiano, mas, mesmo assim, é de perfeita e duradoura compreensão é “desandar a maionese”. Na época em que ela foi cunhada, as donas de casa empreendiam longo tempo e laborioso esforço para servir à mesa este alimento tão delicioso quanto calórico. Bater a maionese requeria cuidado, pois, caso desandasse, o trabalho restaria perdido e sem a menor chance de recuperação. Algo parecido com faltar luz justo agora, antes de eu salvar esse texto (ufa, salvei!). A noivinha que, hoje em dia, só conhece um fogão de ouvir falar, corre o risco de queixar-se para a mamãe que desandou a maionese no seu casamento sem jamais imaginar que o acepipe pode ser feito em casa, à mão.

Enfim, chego à conclusão de que as boas expressões, ricas em cores, sabor, movimento e plasticidade, sobrevivem ao tempo e enriquecem nosso vocabulário. Claro que as inovações tecnológicas podem deixar, por sua vez, seu próprio legado – isso o futuro dirá. Afinal de contas, não vão deixar o cavalo passar encilhado, né?!

PS: Quem lembrar-se de outras expressões e quiser me mandar, por favor: pegue esse bonde andando!
 
  Crônica de 5.11.09   Número 342

LENHAS & LINHAS

Eu era bem pequeno, mas recordo a luta da mãe e suas irmãs para convencerem a minha avó a migrar do seu tradicional fogão à lenha para o fogão com bicos de gás. Frau Seth foi reticente e tinha argumentos inquestionáveis: estava habituada à cocção nas chapas de aço, não via nenhum desconforto em rachar e armazenar lenha e, principalmente, cozinhar em fogão com chamas de gás alterava o sabor dos alimentos. Não procurava a praticidade do moderno nem ligava para a economia de energia e tempo. Também na cozinha da outra avó, Morena, a transição foi nada veloz. Durante muitos e muitos anos os dois modelos acomodaram, lado a lado, a base das panelas.

Meus filhos acompanham outra peleja: não há Cristo que faça a minha mãe usar o forno de microondas. Ela até tem um, mas nem ligado na tomada o pobre permanece. Enlouqueço quando a vejo aquecer o leite na leiteira: um dos meus traumas de juventude era lavar a louça quando lá estava aquela panela de leite com seu tradicional anel de gordura a ser vencido. Haja sabão e Bombril! Ela usa, também, o fogão e três panelinhas para aquecer uma comida pronta, ao invés de servi-la gelada, direto no prato, e colocar no micro.

Minha mãe, de modo cíclico, é reticente e tem argumentos inquestionáveis: está habituada à cocção nas chamas azuis, não vê nenhum desconforto em lavar panelas e, principalmente, o aquecimento em microondas altera o sabor dos alimentos. Minha sogra, não: usa o micro todos os dias. Mesmo assim, reconhece que o eletrodoméstico jamais de substituirá inteiramente o fogão tradicional, o que projeta uma longa convivência de ambos em sua cozinha.

Lembrei disso para meter minha colher torta na entrada do e-book no mercado livreiro com mais efetividade. Fico pensando se a resistência de muitos será bastante eficaz a ponto de frear o processo. Mais: começo a ter muitas dúvidas se ela é, enfim, correta. O motivo para isso é o singelo exercício de imaginar grandes cidades como São Paulo com seus milhões de habitantes cozinhando em charmosos fogões à lenha.

A celulose, qualquer piá sabe, é a matéria prima para se fazer papel. Vem da madeira, aquele elemento que arde no fogão à lenha. Mesmo que na atualidade ela seja obtida exclusivamente de florestas artificiais e renováveis, o processo, no mínimo, utiliza-se de insumos e espaços agriculturáveis. Com o aumento brutal da população humana e a festejada redução dos índices de analfabetismo, o futuro fica complicado. E livros exclusivamente de papel podem ser algo tão anacrônico, poluidor e impraticável quanto fogões queimando lenha nos apartamentos das metrópoles.

E agora? Agora começa o período de tempo indeterminado (eterno?) em que livros tradicionais e eletrônicos passarão a conviver em nossas casas e bibliotecas. Muitas avós, pais, mães e tios serão alvo de incompreensão ao optarem pela compra de grandes volumes de brochuras ao invés de carregarem seus e-books. Se tudo isso resultar no desejável consumo da literatura, alimento insubstituível, tudo bem. Quem sabe, e eu rogo por isso, muito mais se produza e muitos mais terão acesso aos bons livros.

Porém, ninguém me convence de que é igual. Reticente, tenho argumentos inquestionáveis: estou habituado ao apelo tátil das páginas, não vejo nenhum desconforto em suportar o peso de alguns livros e, principalmente, ler em telas altera o sabor do que está escrito.

PS: dia 11/11, 19h30, na Casa do Pensamento, Armazém A do Cais do Porto, na 55ª Feira do Livro de Porto Alegre, estarei na mesa redonda A Literatura na Era Digital: possibilidades e desafios, ao lado de Dodô Azevedo e Luiz Paulo Faccioli. Feito o convite!



 
  Crônica de 29.10.09   Número 341

O JOGO


Rapaz, peça azul, recebe suas cartas do destino. Moça, cor-de-rosa, idem. Em jogo, o cotidiano do matrimônio. Os dados ditam os possíveis avanços. Começa outra emocionante partida de devagar se vai (ou não) ao longe.

Rapaz atira os dados: cinco. Puxa uma carta que diz: a esposa chega do salão de beleza com os cabelos recém cortados. 1. Ele repara e elogia na hora: pula as cinco posições. 2. Ele até repara, mas comenta sem muito entusiasmo: avança uma só casa. 3. Ele não repara, mas elogia bastante quando ela chama a sua atenção: permanece no mesmo lugar. 4. Ele não repara e, quando ela conta a novidade, a resposta é: – Nossa, quanto custou isso? Volta para o começo do jogo...

Moça atira os dados: três. Puxa uma carta que diz: (ao telefone) – Querida, vou com o pessoal tomar um chopinho, tá? 1. Ela responde que sim e manda um abraço para a turma: avança as três posições. 2. Ela reclama, mas – vá lá – aceita, desde que ele chegue cedo: avança uma só casa. 3. Ela aceita relutando e deixa nas entrelinhas que isso vai ter um preço: permanece no mesmo lugar. 4. Ela não só proíbe, como ainda fica de mal quando ele chega em casa: volta para o começo do jogo...

Rapaz atira os dados: dois. Puxa a carta que diz: a pia está cheia de louça. 1. Ele toma a iniciativa, lava tudo e ainda prepara um cafezinho: avança as duas posições. 2. Ele faz de conta que não vê, mas atende ao pedido dela para que lave a louça: avança uma só casa. 3. Ele faz o serviço depois que ela insiste muito, e ainda guarda tudo nos lugares errados: permanece no mesmo lugar. 4. Ele chama a esposa de relaxada e, se ela pede para que ele lave dessa vez, de preguiçosa: volta para a casa dos pais, ao menos por uma noite.

Moça atira os dados: seis. Puxa a carta que diz: a TV vai transmitir a final do campeonato de futebol. 1. Ela prepara uma pipoca, veste-se para a ocasião e senta ao lado do marido: avança as seis posições. 2. Ela diz que vai ao cinema e, ao sair, deseja boa sorte ao torcedor: avança uma só casa. 3. Ela fica em casa cruzando propositalmente na frente da TV: permanece no mesmo lugar. 4. Ela marca um compromisso para os dois na mesma hora, e arma uma briga violenta quando ele se recusa a cumpri-lo: se o time for campeão, volta para o começo do jogo. Se não, vai para a ponte que partiu e não volta tão cedo!

Rapaz atira os dados: dois. Puxa a carta que diz: ela quer sexo. 1. Ele busca taças e o espumante que está na geladeira, deixa o ambiente em meia-luz e se desdobra em carícias: avança as duas posições. 2. Ele topa e parte para cima com uma urgência desproporcional: avança uma só casa. 3. Ele entra no jogo, mas mal consegue um empate aos quarenta e cinco do segundo tempo: permanece, perigosamente, no mesmo lugar. 4. Ele diz que está cansado, estressado, deprimido. E já não é a primeira nem a segunda vez... Aí ela pergunta: – Será que tem volta?

Moça atira os dados: quatro. Puxa a carta que diz: ele quer sexo. 1. Ela busca taças e o espumante que está na geladeira, deixa o ambiente em meia-luz e se desdobra em carícias: avança as quatro posições. 2. Ela topa, mas o recebe com mínima reciprocidade: avança uma só casa. 3. Ela, depois de certa insistência, entra no jogo sem nenhum tesão, consultando o cronômetro a cada minuto: continua, fria e estática, na mesma posição. 4. Ela diz que está cansada, estressada, deprimida. Ele suplica. Aí ela relembra que ele sequer reparou em seu novo corte de cabelo: ele volta para o começo do jogo.
 
  Crônica de 22.10.09   Número 340

DESMATAMENTO

Casamento é mata fechada, densa, com delicada diversidade, mas com alguma chance de sufocar. Um estado civil bem diverso ao da solteirice: campo ensolarado e franco, cenário de batalhas para caça e caçador. No campo, o horizonte se mostra pleno, 360° de possibilidades para as mais loucas aventuras. No casamento, resta subir à copa dos sonhos para liberar a visão em todos os sentidos. Mesmo assim, lá não viveremos o tempo inteiro: não somos pássaros, e os sonhos apenas nos iludem com asas de nuvens.

A floresta chamada casamento é para além de sedutora, escondendo no lusco-fusco muitos encantamentos. Só nela, e em nenhum lugar mais, florescem orquídeas raras. A sombra é constante e prazerosa; o anoitecer, aconchegante. Quem conhece as trilhas encontra com facilidade cachoeiras de água pura. Também é lá que estão as árvores de raízes profundas e troncos com seiva perfumada ‒ ah, o amor! Há borboletas e filhos, canto dos passarinhos, cipós para servirem de varal, cheiro forte de terra. É nas cavernas da mata que estamos seguros das tempestades. Difícil mesmo é evitar o surgimento do limo nas pedras do caminho.

Por outro lado, todo homem casado, e toda mulher, antes de se embrenharem na mata, habitaram o campo. Conhecem muito bem a rotina do vento forte, dos rápidos deslocamentos, da vegetação rasteira ‒ composta de beijos orvalhados e pouco comprometidos. A amplidão do céu crivado de estrelas em noites solitárias. As árvores esparsas, nas quais se pode subir de vez em quando: nunca deixamos de sonhar! Eles ainda lembram que no campo era necessário, também, conviver com uma certa dose de perigo ‒ a exposição é típica neste cenário. Talvez seja por isso que os descomprometidos andem sempre em bando. Amigos ‒ nossa! ‒, como se protegem...

Houve um tempo em que estes dois ambientes eram menos permeáveis. Os humanos que se mudavam para a mata fatalmente morriam por lá. Ou, como alternativa, terminavam seus dias nas suaves clareiras da viuvez. Hoje, posso estar até enganado, vejo as pessoas entrando na floresta meio de costas, sem tirar os olhos da saída. Agindo assim, nem bem estão no campo, nem bem no mato. E, sem coragem para mudar de entorno, dificilmente penetram muito fundo. Que cachoeira qual nada! Sai para lá borboleta! Ao diabo com essa raiz que só me faz tropeçar! Êta tronco áspero! É lá fora que brilha o astro rei... Há, também, aqueles que estacionam nas margens ‒ um pé lá, outro cá.

Porém, mesmo quem se aprofunda na floresta pode um dia desejar sair. Ou de lá ser despejado, como se intruso fosse. De um momento para o outro, precisará se expor ao sol aberto, apelando para urgente proteção. Faltará fôlego para as correrias, malandragem na hora de arrumar alimento. Nenhum desespero: trilhar o campo é como andar de bicicleta ‒ descontada a pouca destreza (que sobrava outrora) ninguém desaprende. E mato não tem porta: é só voltar lá para dentro na primeira oportunidade. Ou na segunda, terceira, décima oitava... Pois é: às vezes fica complicado voltar ‒ querer não será o suficiente.

Enfim, nosso tempo está deixando a fronteira do mato com o campo mais frequentada que entrada de formigueiro. Mas essa não é nem de longe a pior (melhor?) notícia. Preocupante mesmo é a derrubada galopante da floresta. Parece que virou moda a idéia de que só o campo aberto é lugar de se colher felicidade. Estarei eu, bicho do mato, fadado à extinção?
 
  Crônica de 15.10.09   Número 339

OBITUÁRIO

Uma querida amiga é fanática pela leitura de Obituários. Ela vê uma singela beleza naqueles resumos de existência, além de uma interessante paridade social: ao lado de um General, empresário ou professora emérita, pode estar uma costureira, um estudante, o fanático torcedor de um time da terceira divisão cuja especialidade era assar churrasco. Isso me fez pensar no caso de a seção de Obituário habitar outras partes do jornal, quem sabe rendendo bons textos. Economia & Negócios, por exemplo:

Depois de uma vida inteira dedicada à comunicação entre pessoas em diversas localidades, faleceu recentemente Telefonia Residencial Analógica, filha de Ligação por Telefonistas e neta do revolucionário Telégrafo ‒ este que, durante sua vida, chegou a sofrer uma séria intervenção ortográfica, tendo extirpado seu ph. DDD, como era conhecida, faleceu em virtude de um severo abalo tecnológico, que vitimou boa parte de sua família: a Ficha de Orelhão, o Telefone de Disco, a impertinente Linha Cruzada e DDI, sua irmã gêmea, esposa de Satélite de Comunicação. No Brasil, esteve casada com o Governo durante grande parte de sua vida, divorciando-se depois de um processo de privatização (para alguns, nem tão amigável). Partiu sem deixar herdeiros diretos vivos. Seu legado foi transferido aos sobrinhos, filhos de DDI e Satélite: Telefonia Digital e Telefone Celular. A comunidade jamais esquecerá a importância de DDD na aproximação entre vizinhos e amigos, na criação de serviços de tele-entrega e no auxílio à Defesa Civil ‒ sempre voluntariosa ao chamar o Corpo de Bombeiros, a Polícia e ambulâncias.

Pode-se dizer que as redações de jornal, as agências de propaganda, os escritórios contábeis e de advocacia, os cartórios, escolas e mesmo as residências jamais serão iguais depois da partida de Máquina de Escrever. Seus movimentos coordenados ‒ de grande engenhosidade mecânica ‒ e ruídos característicos acompanharam as mentes mais brilhantes da humanidade por muitos e muitos anos, registrando todas as idéias e documentos por elas produzidos. Gradativamente aposentada e vendo crescer a importância de Máquina Elétrica (com o prático Corretor Automático a seu lado), mantinha-se útil em repartições desatualizadas por todo lado. Porém, Máquina de Escrever foi atropelada pelo Editor de Texto que, junto com a Impressora de Dados, pilotavam um PC (Computador Pessoal) em altíssima velocidade. Com seu passamento, ficaram órfãos as Fitas de Tinta (Bicolor e Preta), o Curso de Datilografia, o Mimeógrafo e o cooperativo Papel Carbono. Ainda é possível encontrá-los por aí, mas sem o mesmo ânimo.

Contrariando o que faria supor sua pouca idade e encantamento, faleceu obscura e tragicamente Disquete de 5”1/4. Seu irmão mais novo, 3”1/2, está na UTI, sem esperanças de recuperação, enquanto Disco ZIP, o caçula, morreu logo depois de nascer. Foram todos vitimados por uma febre conhecida como obsolescência precoce aguda, doença desenvolvida por carências na capacidade de armazenamento, gerando pouca esperança tecnológica no longo prazo. Visto como símbolo de uma época, a aparência de Disquete 5”1/4 chegou a ser sinônimo de modernidade nos anos 80 (auge de sua utilização). Seus herdeiros convivem com a ameaça constante da mesma febre, que parece ser um mal genético na família Informática. Isso poderia explicar tamanha fertilidade criativa e a pressa com que se renovam, criando filhotes a cada semana: frágeis, um deles há de sobreviver para perpetuar o legado.
 
  Crônica de 8.10.09   Número 338

FÁBULA FUTURÍSTICA

O homem parecia ter alcançado a fronteira final: depois de passar décadas aglutinando informações em bancos de dados e, ao mesmo tempo, desenvolvendo formas de armazená-las em espaços físicos cada vez mais exíguos, conseguira um meio de acessar os dados apenas com o pensamento. Funcionava assim: ao arranhar a pele e ali colocar um robô desenvolvido com nanotecnologia, este saberia chegar, por via circulatória, ao cérebro. Ali, e ligado ao conglomerado de bancos de dados do mundo, o nano robô passaria a ser um portal entre o indivíduo e todo o conhecimento acumulado pela humanidade.

Se o portador do robô pensasse: sânscrito, já saberia se comunicar nesse idioma. Pensasse: física quântica, saberia tudo sobre o tema, desde fundamentos até conceitos avançados. Pensasse: lista telefônica, e teria acesso a qualquer número do planeta. Pensasse: Beethoven, já seria capaz de executar qualquer sinfonia do mestre. Pensasse: energia nuclear, e seria capaz de construir de usinas até bombas. Enfim, não importaria mais o tema, pois todo o conhecimento acumulado estaria disponível ao indivíduo, como se ele conhecesse tudo sobre tudo.

Desenvolvida a tecnologia, a primeira providência foi a de controlar sua disseminação. Afinal, conhecimento sempre fora sinônimo de poder. Porém, nem todos pensavam dessa forma. E, depois de se autoinocular um robô, um dos cientistas envolvidos passou a deter todas as informações sobre o projeto, habilitando-se a fazer robôs piratas. Então, em cada um que recebia essa verdadeira maravilha falsificada, nascia o desejo de produzi-la também, tendo lucro com a comercialização. Por fim, em menos de um ano, a inteligência absoluta havia se espalhado em velocidade viral, com quase a totalidade dos homens transformada em verdadeiros gênios.

Chegara, enfim, o tempo da utopia. Ninguém seria mais do que ninguém, nem melhor, nem teria qualquer vantagem. Todos igualados pelo robô. Grego? Falamos todos. Anatomia? Sabemos todos citar cada um de nossos ossos, ou de qualquer animal. Propulsão a jato? Farmacologia? História da arte? Cálculo estrutural? Informática? Direito? Ninguém mais precisava do outro: sabia tudo. E o conhecimento deixou de ser uma marca de diferenciação, de hierarquia, de poder. Do agricultor chinês ao pescador amazonense; do presidente da ONU ao chefe do cartel colombiano; do príncipe árabe à prostituta de alguma ilha do Caribe, para ninguém mais existiam segredos.

Todas as tentativas de frear o processo acabavam abortadas ‒ durante as reuniões, invariavelmente as informações vazavam. As economias entravam em colapso. Todos sabiam tudo, mas ninguém sabia o que fazer, em quem confiar, para quem ceder o comando. A truculência física começou a fazer a diferença. Adultos começaram a matar crianças, homens eliminavam mulheres, maiores assassinavam menores. A luta passou a ser pela água, pelo alimento, pelo teto, pela roupa do corpo. Um homem de quase dois metros de altura matava a todos indistintamente usando uma marreta, enquanto recitava Pirandello ‒ no fundo, era alguém sensível. Até que mísseis nucleares começaram a alçar voo de todo lugar para todo lado.

Infelizmente, a humanidade sucumbiu com a plena, total e absoluta consciência de que nem todo o conhecimento do mundo seria capaz de transformar o homem em um animal racional. E de que a diferença individual é a chave para a igualdade social.


 
Crônicas semanais de Rubem Penz.
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