Crônica de 9.7.09   Número 325

DORME, CAROLINA

Carolina nasceu de parto normal, três quilos e meio, 48cm. Conduzida ao colo da mãe pelo obstetra, ali, nos primeiros instantes, amassadinha e vermelha, não se parecia nem com ela nem com o pai: parecia, isso sim, cansada. E cansada permaneceu durante todo o período em que estiveram na maternidade – mal e mal cochilava, já abria os olhos outra vez. E chorava um pedido incompreensível que punha a mãe nervosa.

Quando deixaram o hospital, eram duas sem dormir. Por isso, talvez seguindo algum instinto, a mãe restringiu tanto quanto pode o assédio natural e carinhoso de amigos, vizinhos, tios e avós em sua casa. Invertendo o senso comum, não era ela quem adormecia quando Carolina pegava no sono: a menina que parecia descansar apenas quando a mãe, exausta, apagava. Porém, bastava alguém entrar no quarto para os olhos da criança se abrirem outra vez. E, com eles, o choro.

A estranha relação de Carolina com o sono quase terminou com o casamento. O marido, lógico, não aceitava com alegria sua expulsão do quarto do casal. Mesmo assim, reconhecia a necessidade, pois a filha não pregava o olho enquanto ele não se retirava. A salvação foi descobrir que ela ficava muito mais tranquila quando a própria mãe se ausentava, deixando-a só. A partir de então, viram Carolina dormir em seu próprio quarto, sozinha, porta fechada, tudo com menos de três meses de idade.

Nunca, porém, o sono da menina deixava de ser preocupação. Quando começou a falar, suas queixas eram estranhas: sombra, mamãe. E escureciam ao máximo o quarto. Lagartixa, mamãe: e caçavam o animalzinho no canto do teto. Mosquito, mamãe: bom, essa reclamação encontrava eco na normalidade. Aos cinco anos ela ganhou um pequeno aquário habitado por um peixe Beta. Colocaram sobre a escrivaninha, imaginando que seria bom para ela curtir a companhia. Na manhã seguinte, lá estava o aquário no corredor, do lado de fora da porta do quarto. Perguntaram a razão. Ele nada durante a noite, foi o que explicou Carolina.

Aos poucos o problema ficava claro: Carolina, desde que nascera, despertava com o menor movimento que percebesse. Por isso adormecia no escuro, sozinha, sem nada se mexendo ao redor. Também essa era a razão de ter destruído três móbiles dados pelo tio (e não uma suposta antipatia que imaginávamos). Dar-se conta desse problema a fazia sofrer, principalmente depois de passar a noite em claro na primeira, e única, vez em que foi dormir na casa de uma amiga. E, para receber colegas e primos em sua casa, só se dormissem na sala de TV. Viagens, passeios, excursões, campeonatos esportivos em outra cidade, nem pensar. E isso explicava o fato de se manter acordada dentro do automóvel, quando todas as crianças dormem ferrado em viagens.

Carolina cresceu. Os filhos sempre crescem. E muito mais rapidamente do que gostariam os pais. Hoje, já uma moça, como não poderia deixar de ser, a menina está namorando. Fernando é o nome do rapaz. Estuda Educação Física, tem quase dois metros de altura e ficou para dormir. Armaram para ele o sofá-cama da sala de televisão, na esperança de que se acomodasse com razoável conforto. Neste momento a mãe está na cama, mas não consegue dormir: o pai caminha de um lado para outro sem parar, bem na frente dela. É compreensível sua preocupação. Ao desconfiar de que algo se move para além de sua porta, teme que Carolina não esteja dormindo.
 
  Crônica de 2.7.09   Número 324

MEMÓRIAS DO FUNDO DO BOLSO

Nasci muitas moedas atrás, lá nos idos dos anos sessenta. Meu pai tinha pouco menos de trinta anos de idade à época. Ele, quando infante, viu morrer o Mil-réis – a moeda que antecedeu nosso primeiro Cruzeiro (Cr$). E foi com as novas cédulas que ele pagou sua grapete, as entradas de cinema, as passagens de bonde. Pagou a faculdade, as alianças que ofereceu à noiva e a maternidade de seus três primeiros bebês. Depois, na curta vida do Cruzeiro novo (NCr$), pagou o hospital que recebeu o filho caçula e, no mesmo ano, as entradas para ir comigo na inauguração do estádio Gigante da Beira-Rio. Com NCR$ comprou a pipoca daquela noite mágica em que o Colorado enfrentou o Benfica de Portugal, time do lendário Euzébio (Inter 2 X 1 Benfica). Para ficar no futebol, os Cruzeiros novos deram lugar outra vez ao Cruzeiro em 1970, um pouco antes de nos tornarmos Tricampeões Mundiais com Pelé, Zagallo, Jairzinho e companhia.

Mesmo reconhecendo que o primeiro Cruzeiro e seu novo (NCr$) saldaram despesas representativas na minha existência, a primeira moeda com que lidei de verdade foi o renascido Cr$. Era com Cruzeiros no bolso que eu pagava o sanduíche prensado durante o recreio no colégio, comprava gibis do Mickey e da Mônica, e picolés Chicabom nos verões intermináveis das férias na Praia do Barco. Com essa moeda levei para casa, orgulhoso, um LP da Clara Nunes. E os Cr$ foram acompanhando meu caminho musical até eu bater nas portas do jazz, no impecável álbum Zabumbê-bum-á de Hermeto Pascoal (1979). Temas como Suíte Norte Sul Leste Oeste abririam meus sentidos para, literalmente, todas as direções. Ainda com o mesmo padrão monetário, desgastado pela persistente inflação, entrei e saí da universidade, caindo no mercado de trabalho em um período de economia muito, muito desafinada. E de desvalorização monetária ensurdecedora.

Em 28 de fevereiro de 1986, no instante em que, entre amigos, cruzávamos o Rio Mampituba (a divisa entre os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina) nasceu o Cruzado (Cz$). Voltávamos de férias em Florianópolis. Dílson Funaro era o pai da nova moeda, vinda para tempos de Nova República. O mais proeminente ministro do primeiro governo civil de nossas vidas, presidido por José Sarney, cortou, junto com o cordão umbilical, três zeros da antiga cédula. Naquele dia, com tantas incertezas quanto esperanças, eu mudava de categoria: deixava de ser um pé-rapado milionário para me tornar um pé-rapado na casa das dezenas. Foi, também, o momento em que minha vida coincidiu com a vida das moedas nacionais: várias mudanças em pouco tempo. Pulando de plano em plano econômico, troquei de profissão, noivei, casei e descasei. Tudo isso entre Cruzados, Cruzados Novos (NCz$) e os Cruzeiros outra vez – a nova/velha moeda. Perdi as ilusões, muitos zeros no caminho e, tristemente, boa parte dos cabelos. Conheci uma nova companheira: a enxaqueca.

O Cruzeiro Real (CR$), sétima moeda que caía no meu bolso, foi criado por Itamar Franco em 1° de agosto de 1993. Isto é, nas portas dos meus 29 anos, coincidindo com a idade do meu pai à época em que nasci. No mês seguinte encontrei minha amada e, antes da chegada da URV (um fator de conversão com cara de dinheiro) e do Real (R$), já estávamos casados. Assim, para nós será sempre muito fácil saber a idade do atual padrão monetário, cujo aniversário de quinze anos aconteceu dia 1º pp. Na vigência do Real construímos a família. Tediosamente, nossos filhos não conhecem outra moeda. Nem os constantes cortes de zeros arremessados nos dragões da inflação. Nem sabem o que é a inflação. Eles acham isso tudo muito maluco!

A solidez da economia brasileira talvez seja o principal benefício resultante de nossa jovem democracia, senão o único. Meu desejo, agora, é que em um futuro próximo meus filhos escrevam um texto sobre os escândalos políticos, a anarquia administrativa e as fraudes generalizadas estampadas em nossas manchetes de jornais. E leiam para os meus netos, explicando o inexplicável: como conseguíamos viver daquela (dessa!) maneira. E anões do orçamento, mensalões e atos secretos soem tão distantes quanto Mil-réis, Cruzeiros e Cruzados. Enfim, que o nepotismo, a corrupção e o clientelismo sejam, de uma vez por todas, moedas fora de circulação.
 
  Crônica de 26.6.09   Número 323

NOSSOS FABULOSOS PROBLEMAS

Era uma vez um velho chamado Executivo, um menino chamado Legislativo e um cavalo cujo nome era Judiciário. Um dia, Pátria, dona da casa onde moravam os três, pediu que fossem até a cidade para fazer um favor ao Povo, seu filho. Já na partida, foi criado um certo constrangimento: como iriam se portar durante o deslocamento?

No primeiro arranjo, Executivo montou no Judiciário e deixou o Legislativo a pé. Ao passarem por uma vizinha que varria a calçada, foram interpelados com uma certa revolta:

– Executivo, o que fazes aí montado no Judiciário, enquanto o pobre Legislativo está cumprindo o trajeto ao largo, caminhando?
– Ora, não foi nada pensado, minha senhora – respondeu o velho. – Essa forma é apenas uma medida provisória: decidi ficar, assim, acima do Judiciário, e com o Legislativo de fora, só me assistindo.

Quiseram continuar indefinidamente (quer dizer, o Executivo quis), mas a senhora não deixou os três seguirem dessa maneira. Disse que era um escândalo: a posição mais correta para Legislativo seria ali, com o Judiciário lhe apoiando. Enquanto isso, o Executivo, esse sim, andaria com suas próprias pernas. E assim foi feito.

Percorreram mais algumas léguas até chegarem a uma venda. Defronte ao estabelecimento, o proprietário, olhando para a cena, parou o trio mais uma vez:

– Posso saber o que vocês estão querendo, andando aí desse jeito?
– Vamos até a cidade por ordem da Pátria – falou o pequeno Legislativo.
– Mas, menino, como podes ser tão insensível ao deixar o Executivo sem montaria? – quis saber o comerciante.
– É que nos falaram que o lugar do Legislativo é aqui, com o Judiciário. E o Executivo, bem mais forte, pode muito bem andar sozinho.

O homem não concordava. Se não cabiam os dois sobre o animal, que nenhum ficasse com tal privilégio. Além do mais, todos tendo pernas, bem que eles poderiam caminhar juntos, em posição de igualdade. O Judiciário, segundo ele, merecia o mesmo status dos demais. E assim foi feito.

Haviam cumprido mais da metade do caminho, quando passaram por um padre. O sacerdote ficou espantado e, para satisfazer sua curiosidade, perguntou:

– Vocês aí: tendo o Judiciário a lhes servir, como podem desprezá-lo?
– Não se trata de desprezo, seu Vigário – disse o velho. – Ele não parece forte o suficiente para acomodar nós dois.
– E implicam quando um só está com dele – completou o menino. – O senhor pode nos ajudar a decidir a forma ideal para andarmos?

O padre disse que não poderia resolver essa questão. Pastoreava almas, apenas. E, mesmo assim, perdia seu rebanho para os lobos a toda hora.

– Cada um com seus problemas! – falou a autoridade eclesiástica, rumando para o seu templo.

Executivo, Legislativo e Judiciário sentaram-se à beira do caminho. Lembraram que a Pátria esperava que eles ajudassem o Povo. Mas, como só recebiam críticas da opinião pública, sentiam-se paralisados. Foi quando decidiram, a partir dali, cuidar apenas de seus próprios interesses. Azar do Povo que, necessitado, esperava pela liderança do Executivo; pela capacidade de renovação do Legislativo; pela força do Judiciário. Às favas com os pedidos da Pátria! Estamos nos lixando! – foi o brado.

Moral da história: se eles não fizerem nada, a culpa ainda será nossa.





 
  Crônica de 18.6.09   Número 322

O GUETO DE CRACKÓVIA

Para Adriana Marques

A Cracóvia, importante cidade polonesa, foi ocupada por tropas nazistas em 1939, setenta anos atrás. Imediatamente, eles iniciaram a perseguição aos judeus lá residentes. Em 1941, foi construído um gueto para abrigar aqueles que lá restavam, isto é, os que ainda não haviam partido para os campos de concentração ‒ Auschwitz, por exemplo, ficava pouco mais de sessenta quilômetros distante de Cracóvia. Como todos sabemos, em muitos casos, para além do gueto, o que esperava os prisioneiros era a iminente execução.

Vinícius de Moraes, sensibilizado por um desenho de Carlos Scliar, abordou o tema do Holocausto em uma crônica intitulada “Meninas sozinhas perdidas no mundo e dentro de si”. No texto, tão belo quando repulsivo, o poeta nos oferece sua visão de uma das maiores tragédias humanas. São palavras fortes: “ (...) Meninas perdidas, sozinhas no mundo e dentro de si: ó abstratas, mímicas e galglionares! ‒ feixes de ossos armados para a fogueira de todas as esperanças, todos os votos, todos os desejos. (...) Aparentemente meninas: conservais no rosto a perene crispação de um sorriso. Mas não é sorriso, é magreza. Não vos foi dado lábios nem para sorrir, nem para beijar. Tendes a boca negra como uma cratera e vosso mau hálito suspira: amor!”

Corta para nosso Brasil de 2009. Para as acinzentadas metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre. Para muito distante dos horrores da Segunda Guerra. Mas, também, para dentro de corações que sangram tragédias humanas tão graves quanto aquelas experimentadas nos tempos dos guetos e dos campos de concentração nazistas. Súbito, me deparei com Vinícius de Moraes descrevendo com horrenda semelhança as moças e meninos entregues ao vício das drogas, à dependência do crack. Vi-me diante das macérrimas e sombrias meninas de Carlos Scliar, agora prisioneiras de uma nova atrocidade, numa guerra sem pátria, crença, classe social, idade, sexo ou etnia para escolher entre suas vítimas. Em qualquer hora do dia ou da noite, basta circular para encontrarmos meninas perdidas, sozinhas no mundo e dentro de si...

Muitas vozes se insurgem denunciando o horror de um gueto chamado vício, no qual, tristemente, as pessoas entram por sua própria vontade. Depois, atrás de um muro de delírios erguido com pedras, seringas ou fumaça, passam a trabalhar e a viver em função daquilo que as aprisiona. Experimentam os atos mais torpes, aviltam-se, criminalizam-se, humilham-se. Sofrem e levam muitos ao sofrimento. Já não há conforto, não há higiene, não há alimento ou sono. Tudo parece levar à morte. Campanhas publicitárias apelam para que estejamos afastados das pedras que rodeiam o gueto que chamarei de Crackóvia. Um lugar onde, ao entrar, nos perdemos, sozinhos no mundo e dentro de nós...

Porém, há que se ter um cuidado: nossa raiva, nossa indignação, nosso asco deve ser dirigido àqueles que traficam, produzem, lucram com a desgraça dos prisioneiros de Crackóvia ‒ onde há homens e mulheres que “ardem na fogueira de toda a esperança”, como disse Vinícius. O dependente químico, por mais repugnante que seja sua aparência, por mais violentas que sejam suas atitudes, jamais se libertará sem nossa ajuda. Nas palavras do poeta, tem “a boca negra como uma cratera”, e “o mau hálito suspira: amor!”

Quero muito conseguir amar os viciados, prisioneiros de Crackóvia, na mesma medida em que odeio o traficante de entorpecentes. É super difícil, mas conheço quem é capaz de fazê-lo. E admiro tanta dedicação e esforço em lutar pela liberdade alheia. Por enquanto, suplico a quem consome drogas “socialmente”: pare de financiar o Hitler dessa história.
 
  Crônica de 10.6.09   Número 321

POR ARRAIAIS SEM ARRANHÕES

Festa Junina é uma tradição interiorana. Talvez isso explique sua louvável resistência ao vírus do politicamente correto, disseminado nos últimos anos por toda parte, mas, principalmente, nos grandes centros urbanos. Ainda bem! Afinal, bem posso imaginar o estrago provocado nas tradicionais festas de São João, São Pedro e Santo Antônio caso aderissem à intolerância das patrulhas corretoras. Sobraria quase nada.

A primeira vítima, creio, seria a própria figura do caipira. Os politicamente corretos protestariam contra o fato de pintarmos os dentes para ficar banguelas. Afinal, é uma carga violenta de preconceito contra os pobres desamparados, historicamente mantidos longe das cadeiras de dentistas em função de suas condições monetárias. Além do mais, isso evidenciaria um deboche com relação à suposta disparidade social do homem do campo em termos de educação e de higiene. Não faltaria, também, quem exigisse uma atualização no caipira, pois, integrado à cadeia de agrobusiness, ele tem em mãos tanto um laptop, quanto uma escova de dentes de última geração.

A patrulha da moda também poderia colocar suas agulhas de fora: onde já se viu calças surrecas (puídas e remendadas), camisas xadrez sem o menor feitio, suspensórios e chapéu de palha para representar o campesino? Onde fica o jeans justinho, a camisa de grife, o chapéu de vaqueiro norte-americano e as botas de couro, itens predominantes em toda festa de boiadeiro? E os desastrosos vestidos de chita, maria-chiquinha e sardas? Depois do tal Ozônio (que bem poderia ser nome de Coronel), ninguém mais se descuida do protetor solar e, por isso, louvar as sardas pode ser interpretado como desestímulo ao seu uso. No caso sulino, ainda tem os gauchamente corretos patrões de CTG (Centro de Tradições Gaúchas) para proibirem pilchas em festa de caipira. Bombacha e vestido de prenda são trajes de gala, e não fantasia!

Quando o assunto é fogueira, a briga seria com as patrulhas ecologicamente corretas. Não faltaria alguém para citar de memória um coeficiente de poluição gerado por uma fogueira média, ardendo por meia dúzia de horas. Ao multiplicar esse valor pelo número de fogueiras acesas no Brasil em noite de São João, a grandeza auferida significaria meses de produção ininterrupta em uma laminadora neoliberal capitalista e safada (aqui a patrulha de esquerda dá o tom). Isso sem falar na quantidade de mata nativa sacrificada para que homens desprovidos de autocontrole etílico arrisquem sua integridade física em saltos temerosos ‒ flagrantes de mau exemplo para as crianças presentes na festa.

Nem mesmo o casamento na roça escaparia da ação das críticas politicamente corretas. A moça grávida (e ainda solteira) estaria estimulando a prática de sexo na adolescência. O pai, obrigando o noivo a desposar a menina sob a mira de uma espingarda, seria um exemplo cabal de tortura e coerção. E onde estaria o porte e registro da arma? Ela foi adquirida legalmente? Além do mais, ninguém hoje em dia acredita no casamento forçado como método eficaz para corrigir desvios de conduta. Por fim, não faltaria quem também exigisse a realização de casamentos homoafetivos, multirraciais e ecumênicos, com o argumento de que todas as minorias merecem as bênçãos de Santo Antônio.

Que os Santos juninos protejam os arraiais contra a patrulha politicamente correta. Senão, daqui a pouco vão estragar a brincadeira da cadeia com Habeas Corpus preventivos; vão considerar os buscapés como bullying; pau de sebo, só com rede de proteção; para as bandeirolas, exigirão papel reciclado; copo de quentão com a gradação alcoólica; determinados decibéis na altura dos autofalantes; queima de fogos por empresas especializadas etc ao infinito. Na esteira da (corretíssima) proibição de balões, a turma do politicamente correto pode desfigurar uma das mais divertidas manifestações populares. Apagando, enfim, a fogueira em nossos corações.

 
  Crônica de 4.6.09   Número 320

DIA DE FAXINA

Qual o melhor dia para a limpeza da casa? No caso de quem contrata uma profissional, qualquer um, de segunda a sábado, desde que ela esteja comprometida em sua agenda. O ideal – e aqui está uma conquista de clientes antigos – é o dia de faxina cair na sexta-feira, véspera de final de semana. Quinta, ainda é bastante bom. Segunda-feira pode bem servir para juntar os restos mortais de eventuais festanças. Porém, seja contratando alguém para limpar a casa, seja por nossos próprios esforços, um consenso existe: em domingos, não há ânimo para atuar na limpeza.

Esta é a ótica de quem limpa, claro. Do ponto de vista de quem recebe a higienização, dia de faxina é sempre domingo. Ou folga, ou feriado. Um dia para quebrar a rotina, sair do sério, dar um tempo. Rever amigos, até. Senão, vejamos:

Em que outro dia os tapetes ganham uma folga para passear no pátio, na varanda ou na sacada? Eles todos – o da sala, os dos banheiros, aqueles à beira da cama – deixam de receber pisadas distraídas para tomar banho de sol. Quando, de quebra, ganham umas voltinhas na máquina de lavar, galgam a solene altura dos varais. Se não, ao menos sobem para encostos de cadeiras, ou grades, respirando outros ares. E garantem um mínimo de elevação do espírito.

Cadeiras se esbaldam em piruetas, muitas vezes parando de cabeça para baixo em cima da mesa, que já está aliviada da responsabilidade cotidiana de equilibrar aquele vaso de cristal caríssimo (para o azar do sofá que fica por perto, e agora acomoda o enfeite de modo desengonçado). Se o piso recebeu carinhos do pano úmido e perfumado, ou a renovação de sua cera, mesa e cadeiras vão curtir essa inversão de posições por horas a fio, rindo à toa!

Dia de faxina também é a oportunidade das camas, desavergonhadamente, ficarem nuas. E dos lençóis, fronhas e cobertas mexerem-se com o vento. Se os homens tivessem ouvidos mais atentos, perceberiam a algazarra dentro do armário, onde jogos de cama limpos apostam em qual será o preferido para sair da reserva e entrar em campo. Os travesseiros, pesados de tantas confissões inconfessáveis, podem, enfim, dar uma espairecida. Suas penas, afinal, não são de ferro...

Quando é o caso daquela denominada faxina grossa, até as cortinas, para variar, abandonam seus varões. As venezianas curtem chuva de mangueira, e as folhas das janelas passeiam para lá e para cá no bailado das flanelas. Com sorte, as cristaleiras e armários serão arredados para longe das paredes: bancar a estátua para esconder o pó mais rebelde cansa suas belezas. E, já que são muito grandes para sair porta afora, pelo menos ganham a oportunidade de espiar a rotina por um outro ângulo.

Depois da faxina, é impossível não reparar em tantos sorrisos pela casa. Alegram-se os enfeites, os lustres, o piso. O contentamento se reflete em todos os espelhos, reluz nos tampos de granito, transparece no vidro do box. Por essas e por outras que nossos móveis não entendem quando passamos os domingos entediados, amortecidos diante de uma tela de TV. Eles sabem que programa bom é tomar sol, fazer piruetas, olhar a vida por novos ângulos. Desprender-se dos varões, sentir o vento no rosto, perfumar a alma. Trocar afetos para aliviar nossas penas, despir-se de pesadas máscaras.

Para a casa, dia de limpeza é sempre domingo. Para nós, domingo é, ou deveria ser, sempre um dia de faxina.
 
  Crônica de 27.5.09   Número 319

DEBAIXO DO NARIZ

Quem mexe os invisíveis cordões da moda, das tendências, do comportamento? Boa pergunta... Uma teoria é a de que esses movimentos estão sujeitos às deliberações efetuadas em reuniões seletas, em andares altíssimos de edifícios luxuosos em Nova Iorque, Milão ou Paris. Ou, por outro lado, são fruto de disparos aleatórios e pulverizados de tentativa e erro, combinados com pesquisas mercadológicas. Há quem acredite na simpática ideia de inconsciente coletivo. Algo, porém, é consensual: na moda, nas tendências e no comportamento, vale sempre a antiga lei de Lavoisier, na qual nada se cria ou se perde – tudo se transforma.

Por exemplo, em meu pouco tempo de vida, vi as calças alargarem as bocas de suas pernas feito cortinas; depois, retrocederem até quase não passarem os pés e, novamente, ganharem o formato de sino. Na cintura, elas andaram, entre altos e baixos, variando da borda das costelas ao cúmulo de exigir depilação feminina e cuecas de grife. Na minha infância, bermuda era vestimenta de escoteiro: calção de verdade era curtinho como os da Seleção Brasileira de 74. Agora, nada que esteja acima do meio da coxa é aceito por meu filho. Nem preciso entrar no movediço terreno da indumentária feminina, muito mais oscilante e variável, para comprovar a tese de que tudo o que foi moda um dia, fatalmente, retorna.

Vinha faz tempo pensando nas idas e vindas da moda e, duas semanas atrás, lendo uma tirinha em quadrinhos do Recruta Zero, decidi trazer à tona uma inquietação para compartilhar com os leitores. Antes, para quem desconhece as personagens de Mort Walker, apresento quatro delas e suas características: Sargento Tainha, o brucutu, marcado pelo dente inferior acentuado; Dentinho, o tonto, dentuço feito um Ronaldinho; Zero, o desastrado e preguiçoso, com os olhos escondidos, e Quindim, o mulherengo sedutor, com seu indefectível bigodinho. Pois, ao ver o Quindim cercado de gatinhas, algo me estalou: onde andarão os bigodes? Chegará o dia de eles retornarem à face masculina?

Na década de cinquenta do século passado, época em que o Recruta Zero ganhou fama, nada era mais charmoso do que um bigode sutil. Dos astros de cinema, passando por cantores, homens do jetset internacional e, claro, golpistas sedutores, quase todos os bons partidos cultivavam seus bigodes bem aparados. Rapazes de bigode seguiram na paisagem por outras duas décadas – basta lembrar que o desejado Chico Buarque usava bigode. Antônio Fagundes, também. Aliás, lembro de uma série de atores que recorriam ao bigode para variar de rosto conforme a personagem. Os Beatles, antes de aderirem ao visual barbudão, passaram pela etapa bigoduda. E as mulheres se derretiam.

Alguma coisa aconteceu nos anos oitenta para o bigode ver raspado seu status. Freddie Mercury e Village People podem explicar uma parte do fenômeno, mas não todo. Parece que a maior resistência nasceu em quem, tecnicamente, não usa bigodes: as moças. Hoje, se um homem ameaça deixar o bigode crescer, sua namorada, esposa ou companheira logo protesta. Diz que é anti-higiênico, feio, cafona. Proíbe! Será que parte da crise de papéis e de identidade masculina é causa (ou consequência) da falta de autonomia com nosso rosto? Está na cara: elas temem algo que o bigode simboliza!

Sei não, acho que o bigode voltará a ser moda a qualquer momento. Em breve, todos os zagueiros usarão bigodes. E os atacantes precisarão deixar os seus crescerem para continuar almejando o gol. Os professores usarão bigodes, e os cantores, os fotógrafos, os jornalistas. Nelson Motta voltará a usar o seu. E Pedro Bial. Isso reverterá a tendência de mulheres poderosas e homens submissos. Será o único freio à hipertrofia dos bíceps da Madonna ‒ bigode, ela usaria? Também assumiremos um comportamento mais audacioso nos jogos de sedução, recuperando a esquecida iniciativa. A força de Sansão estava, quem sabe, no cabelo das ventas!

Nossa, vai ver que no bigode está a explicação do imenso poder de José Sarney... O tempo todo ali, embaixo do nosso nariz! Para ele, Gillette já!
 
Crônicas semanais de Rubem Penz.
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